Vacinas: RN tem pior índice em 10 anos

Cobertura de vacinação em 2018 foi de somente 30,7%. Em 2015, foi de 89,9%
O índice de vacinas realizadas no Rio Grande do Norte em 2018 foi o pior dos últimos dez anos, segundo os dados do Ministério da Saúde. Foram 1.165.711 doses aplicadas no estado inteiro até 21 de dezembro, data da última atualização, com uma cobertura de 30,7%. São 2,1 milhões a menos que em 2008, que registrou 3,3 milhão de doses e uma cobertura de 72,07%. As razões para a queda, segundo especialistas, são as campanhas “anti-vacinação” que se espalham no Brasil com informações falsas sobre vacinas e a falta de conhecimento sobre epidemias hoje erradicadas.
Essas campanhas, para a  chefe do Setor de Estatísticas Vitais do Departamento de Vigilância em Saúde (DVS) da Prefeitura de Natal, Aline Delgado, disseminam mentiras como afirmações que a “vacina põe a doença no corpo” e “pode causar consequências com outras doenças”. “Nenhum estudo científico mostra isso, não tem comprovação. Por outro lado, o verdadeiro resultado das vacinas a gente vê hoje: a paralisia infantil acabou no Brasil, o sarampo estava erradicado”, afirmou.

Esse tipo de campanha causa efeitos negativos nos índices de imunização do Brasil desde 2017. Dados do Ministério da Saúde mostram que foi o ano com o menor nível de vacinação dos últimos 16 anos. Apenas 71% a 84% das crianças até dois anos foram vacinadas contra doenças como a poliomelite, o sarampo, caxumba, rubéola, difteria, varicela, rotavírus e meningite. A meta de imunização é sempre 95%. Os dados nacionais de 2018 ainda não foram divulgados.

Seguindo o cenário brasileiro, o Rio Grande do Norte também apresentou uma queda em 2017 em relação a anos anteriores, mas foi superado por 2018. O ano teve 90 mil doses a menos em relação ao número de 2017, que registrou 1.253.613 imunizações. Todas as vacinações, de ambos anos, ficaram abaixo de 95% de cobertura. O dado mostra um cenário diferente mesmo entre anos recentes. Em 2015, por exemplo, quatro campanhas de imunização atingiram a meta e a cobertura média foi de 92,4%.

Uma das piores porcentagens de vacinação local no ano passado foi registrado na dose tríplice viral. Somente 51,7% das doses foram aplicadas. Em 2017, essa mesma vacina teve um índice de 78,9%. Essa vacina previne o sarampo, doença considerada extinga por muitos anos, mas que tem 10.274 casos registrados até o último dia 8 em vários estados brasileiros. Atualmente, há surtos da doença no Amazonas, com 9,7 mil casos, e em Roraima, com 355 ocorrências.

O Rio Grande do Norte não teve registro da doença, mas há casos isolados em estados nordestinos como Pernambuco e Sergipe. Segundo Aline Delgado, as autoridades de saúde se preocupam com o retorno do sarampo e investigam todos os casos considerados suspeitos. No ano passado uma campanha de vacinação contra a doença também foi realizada em todo Brasil.

Falta de memória
Aline Delgado considera a falta de informação da população mais jovem sobre epidemias que foram erradicadas no passado um fator que contribui para as quedas da vacinação. É o caso de doenças como a paralisia infantil, erradicada em 1990 no Brasil. “Parte das mães mais jovens não conheceram e não sabem o que é a paralisia infantil (poliomelite), o sarampo. Não se preocupam em levar seus filhos para se vacinar porque não temem essa doença”, disse.

Uma estratégia adotada pelo Ministério da Saúde para diminuir essa postura, seguida pela gestão do Município de Natal, é de publicar informações sobre essas doenças que podem ser evitadas com a vacina. As campanhas de conscientização mostram o que são a polio e o sarampo, os riscos e o histórico das doenças no Brasil.

Turnos

Uma outra dificuldade, mas em menor escala, são os horários de vacinação. Os postos de saúde públicos ficam abertos durante a manhã e a tarde, hora em que a maior parte da população está trabalhando. A criação de um “terceiro turno” para facilitar o atendimento é uma das principais propostas do ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta para o SUS. Em Natal, a Prefeitura fez convênios para abrir durante os sábados somente para a vacina. É o caso da sala de vacina da Clínica do Shopping, localizada no Midway Mall, que abre das 10h às 22h.
História
Campanhas contra vacinação não são recentes no Brasil, mas voltaram a ter força a partir de 2015. O episódio mais traumático da história do país é a Revolta da Vacina, ocorrido em 1904 no Rio de Janeiro, então capital do país. A revolta foi uma série de protestos da população contra a vacinação, algo novo no país que encontrava resistência.

Doenças como a varíola, a peste bubônica e a febre amarela eram epidêmicas na cidade. O então presidente Rodrigues Alves iniciou uma série de reformas urbanas  e sanitárias para combater às doenças. Uma das ações foi a obrigatoriedade da vacinação. O presidente publicou um projeto de lei que passou a exigir a obrigatoriedade das vacinas em matrículas escolares, obtenção de emprego, viagens e casamentos, por exemplo.

A partir daí os motins tiveram início, com confrontos entre a população e as tropas federais, e cessaram somente após a suspensão da vacinação obrigatória. A vacinação continuou, mas de maneira voluntária. O médico Oswaldo Cruz foi reconhecido por insistir nas campanhas ao longo da vida.

Imunizações no Rio Grande do Norte – Série histórica
2008
Doses: 3.325.388
%: 72
2009
Doses: 1.971.614
%: 74,9
2010
Doses: 2.142.137
%: 70,2

2011
Doses: 1.605.922
%: 84,8
2012
Doses: 1.675.853
%: 78
2013
Doses: 2.374.659
%: 67,7
2014
Doses: 1.908.641
%: 81,8
2015
Doses: 1.672.868
%: 89,9

2016
Doses: 1.281.294
%: 43,1

2017
Doses: 1.253.613
%: 31

2018
Doses: 1.165.711

%: 30,7

Fonte: Data SUS

 
Tribuna do Norte
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