SpaceX lança astronautas com sucesso; tripulação está a caminho da ISS

Salvador Nogueira

Após um adiamento na quarta-feira, aconteceu neste sábado (30) o primeiro voo espacial tripulado a partir dos EUA desde a aposentadoria dos ônibus espaciais, em 2011. O foguete Falcon 9 realizou seu trabalho conforme o esperado e levou a cápsula Crew Dragon à órbita terrestre, de onde a cápsula fará ajustes para um encontro com a Estação Espacial Internacional (ISS). A acoplagem está marcada para domingo.

A decolagem aconteceu às 16h22, conforme o previsto, partindo da plataforma 39A do Centro Espacial Kennedy, mesmo local de onde partiram a maioria das missões Apollo à Lua (nos anos 1960 e 1970) e dos ônibus espaciais (de 1981 a 2011). Doze minutos após a partida, a Crew Dragon já estava em órbita, em voo livre. A missão Demo-2 é o primeiro voo tripulado da SpaceX e, historicamente, o primeiro voo orbital tripulado de uma empresa privada. A bordo, dois astronautas da Nasa: Doug Hurley e Bob Behnken. Eles devem passar alguns meses na ISS e, com este voo de teste, marcam a transição para o transporte comercial de tripulantes em suporte às operações da estação.

A preparação seguiu o mesmo ritual da tentativa abortada de lançamento, na quarta-feira, com os astronautas se apresentando à SpaceX cerca de 4 horas antes da decolagem para o teste dos trajes e o subsequente embarque. Hurley e Behnken receberam rápidas despedidas de seus familiares pouco antes da partida para a plataforma. O presidente Donald Trump, que havia ido até a Flórida para acompanhar o voo na tentativa malograda e saiu frustrado na ocasião, discursou neste sábado após o lançamento.

Durante a viagem à ISS, os astronautas farão testes e checagens da cápsula, incluindo disparos dos propulsores para ajustar e sincronizar a órbita com a do complexo orbital, em preparação para a acoplagem no domingo. Uma vez a bordo, eles devem passar dois a três meses realizando experimentos e manutenção a bordo. A duração exata ainda é incerta e depende do desempenho dos painéis solares da cápsula com o passar dos meses, conforme ela permanece acoplada à ISS.

O voo, designado como Demo-2, era originalmente apenas um teste, com duração de poucos dias. Mas a Nasa decidiu estendê-lo para já usá-lo como forma de rotacionar tripulação a bordo. Nesta missão, a agência espacial americana está como contratante/passageira. Ela é parceira, colaboradora e financiadora, mas a operação do voo, bem como a propriedade do veículo lançador Falcon 9 e da cápsula Crew Dragon, é da empresa SpaceX.

Trata-se de uma grande novidade. E, se tudo der certo, o início de uma mudança sem precedentes na exploração espacial. Basta lembrar que, além do contrato com a Nasa, a SpaceX também já tem voos contratados com a iniciativa privada.

A companhia Axiom pretende realizar dois voos tripulados anuais à Estação Espacial Internacional, a partir de 2021. O bilionário japonês Yusaku Maezawa, que pagou uma pequena fortuna para dar uma volta ao redor da Lua num futuro veículo Starship, da SpaceX, deve antes fazer um passeio orbital terrestre. A empresa de turismo espacial Space Adventures também comercializa assentos em futuros voos. E recentemente circulou a notícia de que Tom Cruise estaria em tratativas com SpaceX e Nasa para gravar um filme no espaço.

A VOLTA DOS EUA, MAS DIFERENTE
O primeiro investimento neste novo modelo comercial de transporte de tripulação, em que a agência é parceira e contratante, mas não projetista ou proprietária, veio em 2010, durante o governo Obama. O plano do presidente era derrubar o desenvolvimento direto de veículos espaciais pela Nasa e fomentar a concorrência entre empresas para prestar esses serviços à agência.

No bojo dessa iniciativa, a Casa Branca havia proposto o cancelamento sumário do projeto Constellation, criado pelo governo Bush na esteira do acidente com o ônibus espacial Columbia para levar astronautas de volta à Lua.

O Congresso americano, contudo, impediu o corte, e tanto a cápsula Orion quanto um foguete de alta capacidade (que só mudou de nome, de Ares V para SLS) continuaram sendo desenvolvidos, sob a gestão da Nasa, tendo como contratantes principais a Lockheed Martin (no caso da Orion) e a Boeing (no caso do SLS).

Era defensável; até então, ninguém tinha clareza que empresas privadas, com contratos de preço fixo, sem a gestão especializada da Nasa, poderiam atingir os padrões de segurança e confiabilidade exigidos para voos tripulados. Na verdade, o grande teste dessa premissa ainda está adiante, começando por este voo.

Mas o fato é que, enquanto Orion e SLS receberam recursos muito mais vistosos (cerca de US$ 37 bilhões e contando), e ainda seguem distantes do primeiro voo tripulado (no mínimo 2022, provavelmente 2023), o programa de tripulação comercial custou menos de US$ 8 bilhões. Gerando duas cápsulas diferentes, capazes de voo tripulado.

No fechamento do contrato com a SpaceX, em 2014, a Nasa pagou pelo desenvolvimento da Crew Dragon e por pelo menos um voo tripulado de teste a soma de US$ 2,6 bilhões. Acerto similar foi feito com a Boeing, que construiria sua própria cápsula, CST-100 Starliner, e faria ao menos um voo tripulado de teste, por US$ 4,2 bilhões.

Com a chegada à Estação Espacial Internacional, a SpaceX vence uma corrida simbólica. Em 2011, foi deixada lá pela tripulação do ônibus espacial Atlantis uma pequena bandeira americana. Seu destino era voltar à Terra na primeira missão tripulada lançada de solo americano após a aposentadoria dos ônibus espaciais.

Um dos tripulantes da missão do Atlantis (STS-135) foi Doug Hurley, que agora comanda a missão Demo-2 da SpaceX e poderá voltar à ISS para buscar a bandeira que ele mesmo deixou lá, mais de nove anos atrás.

LANÇAMENTO NA PANDEMIA
Reputando o voo como atividade essencial, a Nasa seguiu adiante com o lançamento tomando o maior número de precauções possíveis.  Os próprios astronautas tiveram de passar por uma quarentena mais longa que o usual antes do voo, mas, em termos médicos, não sofreram escrutínio muito maior.

A Nasa espera realizar o primeiro voo regular de uma Crew Dragon até o fim deste ano. Já treinam para voar nela os americanos Michael Hopkins, Victor Glover e Shannon Walker, acompanhados pelo japonês Soichi Noguchi.

No segundo voo regular, para 2021, espera-se que um russo, Andrei Borisenko, componha a tripulação.

A Roscosmos, agência espacial russa, naturalmente olha com alguma desconfiança para os novos veículos americanos. Até porque, com sua entrada em operação, a Nasa deixa de ser a galinha dos ovos de ouro de seu programa espacial, contratando a preços exorbitantes assentos para seus astronautas a bordo das cápsulas Soyuz – único meio de acesso à ISS desde a aposentadoria dos ônibus espaciais.

A partir de agora, se tudo correr bem, a Nasa pretende apenas realizar intercâmbio de assentos, com americanos voando em cápsulas russas em troca de russos voando em cápsulas americanas. A troca permite maior segurança e mais redundância no acesso à estação. Mas deixa de ser uma mina de dinheiro para a Rússia.

Quanto à Starliner, da Boeing, ainda levará algum tempo até que possa voar tripulada. O primeiro teste sem tripulação, realizado em dezembro de 2019, falhou em levar a cápsula à Estação Espacial Internacional. A empresa já disse que realizará novo teste sem astronautas, ainda sem data marcada, antes de se propor a realizar um voo tripulado.

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