Saúde pública do RN está sob estresse máximo, diz secretário

A pressão por leitos de clínica médica e de tratamento intensivo para os casos suspeitos e confirmados de covid-19  aumentou no início desta semana no Rio Grande do Norte. O número de pessoas na fila do sistema de Regulação de Leitos da Secretaria de Estado da Saúde Pública (Sesap/RN) iniciou a noite deste segunda-feira, 8, em 104 (a maioria à espera de leitos de Unidade de Cuidados Intensivos (UCI) e de clínica médica. No fim de semana, Natal e Mossoró atingiram simultaneamente a ocupação integral dos leitos específicos para o combate à pandemia do novo coronavírus, o que acendeu o alerta da Sesap/RN.

O número de ocupação de leitos públicos no Estado para a covid-19 foi apontado pelo secretário adjunto da Sesap/RN,  Petrônio Spinelli, como um dos “mais graves” medidores do avanço da doença no Estado, e revela a dificuldade cada vez maior do sistema de saúde de dar conta da demanda de pacientes, que cresce a cada dia.
Muitos dos infectados que precisam de assistência médica, no entanto, sequer chegam à fila da Central de Regulação administrada pela Sesap/RN. São pessoas que obtiveram falsos negativos como resultado nos primeiros exames apesar de apresentarem quadros graves de pneumonia, ou que sequer tiveram a possibilidade de serem testadas, pois foram medicadas e enviadas para casa, onde familiares observaram a sua situação de saúde se deteriorar rapidamente, sem saber a quem recorrer ou como fazê-los receber a assistência necessária em um sistema de saúde próximo ao colapso.
Idosa e hipertensa, Neide Rodrigues, de 69 anos, viu a saúde do filho, o sargento da Polícia Militar Robson Cosme de Souza, de 45 anos, piorar gradativamente ao longo de 15 dias até que o filho pudesse receber assistência médica. Robson começou a sentir os primeiros sintomas, febre e dor de cabeça, no dia 19 de maio. Os policiais militares, como os demais profissionais da segurança, representam uma das categorias enquadradas nos “serviços essenciais”, que precisam continuam trabalhando normalmente durante a pandemia.
“O uso da máscara e do álcool em gel não foram suficientes para proteger o sargento da doença. Dia 19 ele já estava doente. Tirou dois plantões com febre, dor de cabeça. No terceiro dia, não conseguiu mais. Foi ao Hospital dos Pescadores, medicaram ele para os sintomas que estava sentindo e mandaram para casa”, relatou Neide Rodrigues. Não foram pedidos exames nem testes, apesar dos profissionais da segurança serem uma das categorias prioritárias, assim como os trabalhadores da saúde, para aplicação dos testes rápidos da covid-19 enviados pelo Governo Federal.
Peregrinação por leito de UTI durou quatro dias
A febre não baixou, e as dores de cabeça também não melhoraram. A respiração começou a ficar pesada e difícil, e a peregrinação em busca de atendimento continuou. Robson então foi ao Hospital da Polícia Militar, onde foi medicado com azitromicina e ivermectina.
“Não houve nenhuma melhora”, disse Neide Rodrigues. Sete dias depois, voltou ao Centro Clínico da Polícia Militar, dessa vez para fazer o teste rápido de covid-19. O resultado foi negativo. “Nós o abraçamos, felizes, aliviadas. Mas algo não estava certo: a febre não passava, ele mal conseguia comer ou se levantar”, relembrou a mãe, que durante 30 anos trabalhou como enfermeira do Hospital Universitário Onofre Lopes (HUOL).
Neide levou o filho ao Hospital de Extremoz, onde foi sinalizado que Robson tinha uma “pneumonia leve”. Quando levou as imagens do pulmão à uma amiga médica, após dias de administração de medicação sem sinais de melhora, a amiga informou que Robson, na verdade, já estava com infiltração nos dois pulmões.
Foram, então, à Unidade de Pronto Atendimento (UPA) de Pajuçara, na zona Norte de Natal, onde o sargento passou quatro dias sentado em uma cadeira, revezando o equipamento de oxigenação com outros pacientes , além das poltronas mais confortáveis com os que chegavam em situação mais grave. Não havia possibilidade de deitar ou tomar banho. A febre e as dores também não passavam, e a Unidade enchia com casos semelhantes, também em busca de atendimento e sem possibilidade real de transferência.
“A saturação dele chegou a 83%, e ele tinha que revezar a oxigenação com outros pacientes. Quando ele via que chegava alguém mais grave, levantava para a pessoa poder sentar na poltrona, e ia para outro canto, uma cadeira. Ele me olhava e me dizia para ir embora, falava que eu era grupo de risco, e eu só lembro de responder: meu filho, não te deixo aqui de jeito nenhum. Eu já vivi o que tinha que viver, estou aqui porque sei que você tem muita vida pela frente e precisa de mim”, contou a mãe emocionada.
Após quatro dias, sem ter sequer entrado na lista da Central de Regulação da Sesap/RN, ainda aguardando um segundo teste de covid-19 que de fato pudesse confirmar a condição para qual todos os sintomas apontavam, Neide resolveu tomar uma atitude: escreveu um cartaz e postou um apelo nas redes sociais, pedindo um leito para que o filho pudesse, pelo menos, deitar. A resposta chegou nas primeiras horas da manhã desta segunda-feira, 8, quando Robson foi transferido para a Unidade de Cuidados Intensivos do Hospital da Polícia Militar. “É uma dor que só quem está passando sabe. O desespero de ver que não tem sequer oxigênio para todo mundo, eles têm que dividir. De ver seu filho em uma cadeira sentado há quatro dias, sem conseguir sequer levantar a cabeça, e sabendo que ele estava piorando a cada dia sem a assistência necessária”, lamentou Neide Rodrigues.
Créditos: Magnus NascimentoAo longo do fim de semana, policiais militares e bombeiros realizaram fiscalização no Alecrim para cumprimento do isolamentoAo longo do fim de semana, policiais militares e bombeiros realizaram fiscalização no Alecrim para cumprimento do isolamento
Veja a ocupação por regiões e hospitais no Estado:
 
Por região
96,3% na Grande Natal
93,5% no Oeste
66,7% no Seridó
Por hospital – Natal
 
Hospital Dr Luiz Antônio – LIGA
20 leitos de UTI ocupados
100% de ocupação
Hospital Municipal de Natal
15 leitos de UTI ocupados
7 leitos de UCI ocupados
1 leito de UCI disponível
14 leitos bloqueados
95,65% de ocupação
Hospital Central Cel. Pedro Germano
10 leitos de UTI ocupados
8 leitos de UCI ocupados
3 leitos de UCI disponível
4 leitos bloqueados
85,71% de ocupação
Hospital de Campanha 
7 leitos de UTI ocupados
1 leitos de UCI ocupados
16 leitos bloqueados
100% de ocupação
Hospital Rio Grande
5 leitos de UTI ocupados
100% de ocupação
Hospital Giselda Trigueiro
32 leitos de UCI ocupados
3 leitos bloqueados
100% de ocupação
Pau dos Ferros
 
Hospital Regional Dr. Cleodon Carlos de Andrade 
5 leitos de UTI ocupados
1 leito de UTI disponível
83,33% de ocupação
Mossoró
 
Hospital Regional Dr. Tarcísio de Vasconcelos Maia
18 leitos de UTI ocupados
2 leitos de UTI disponível
90% de ocupação
Hospital São Luiz Ltda.
20 leitos de UTI ocupados
100% de ocupação
Caicó
 
Hospital Regional Telecila Freitas Fontes
18 leitos de UTI ocupados
9 leitos de UTI disponíveis
66,67% de ocupação
Infográfico produzido às 19h45 desta segunda-feira, 8 de junho.
Fonte: Regula RN – Sesap RN
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