“Onde tem bicho apanhando também pode ter mulher agredida”, diz Luisa Mell

Na apuração de uma denúncia de maus-tratos a um cachorro, Luisa Mell perguntou a um menino se o pai dele agredia o animal de estimação. “Sim, ele bate em mim e na minha mãe também”, a criança respondeu. De acordo com a ativista, isso não é incomum. Em meio aos resgates de animais, protetores como ela e a psicóloga Andreia Freitas, 43, de Santo André (SP), acabam esbarrando em casos em que a família também está em uma situação de violência. “Onde tem um bicho apanhando também pode ter uma mulher ou uma criança agredida”, pontua Luisa em entrevista à Universa.

De acordo com o major da Polícia Militar de São Paulo (SP) Robis Nassaro, maus-tratos a animais são um dos indicadores de risco de violência doméstica. É que uma pessoa que agride um bicho costuma ser menos empática e mais fria, tendo um perfil psicológico violento. O comandante usou os 22 anos de experiência na Polícia Ambiental para escrever o livro “Maus-tratos aos Animais e Violência contra as Pessoas”, cuja pesquisa diz que, de 2013 a 2014, cerca de 34% das 619 pessoas autuadas por maus-tratos aos animais pela Polícia Militar Ambiental de São Paulo (SP) possuíam também registros criminais por lesão corporal e homicídio.

Por sua vez, um levantamento realizado em 2011 pela Associação Amigos Defensores de Animais e do Meio Ambiente (AADAMA), em parceria com a Júnior Projetos Consultoria da Fafire, revelou que 71% das mulheres vítimas de violência doméstica tiveram seus animais ameaçados, feridos ou mortos pelos parceiros. Segundo estatísticas da Humane Society International (HSI), 88% dos animais que vivem em famílias com violência doméstica são abusados, violentados ou mortos.

“A partir do momento em que um cachorro ou um gato se tornou parte da família, ele também virou alvo de agressões de uma pessoa violenta, como qualquer outro familiar”, fala Nassaro. O animal se torna, ainda, um meio do agressor atingir emocionalmente a vítima. “Uma vez atendemos a ocorrência de um cachorrinho salsicha que havia sido esfaqueado por um homem. O próprio autor do crime nos contou que ele havia machucado o bicho porque a namorada havia saído de casa”, narra o policial militar.

Andreia está acostumada a fazer resgates de animais em áreas de risco, por isso costuma pedir a ajuda da Polícia Militar para fazê-los. “Uma vez fomos buscar um pitbull que estava bastante machucado, havia apanhado muito. O agressor bateu na própria mulher na minha frente e dos policiais, mas ela não quis prestar queixa”, fala a protetora, que relata o seu cotidiano em sua conta no Twitter, onde tem 37 mil seguidores. “Nestes casos, a gente tenta mostrar para essas mulheres que elas têm saída do ciclo de violência, mas nem sempre conseguimos ajudá-las”.

Endurecimento de leis

Tanto protetoras como Luisa Mell e Andreia como o major Robis Nassaro acreditam que os atendimentos a ocorrências de maus-tratos a animais deveriam ganhar mais atenção do Estado. “Não só a polícia, como todas as autoridades, deveriam enxergar essas ocorrências de forma mais ampla. Ao atender uma denúncia de agressão a animais, é preciso investigar se outros membros da família também não estão sofrendo uma violência”, comenta o PM.

Entrevistas com os familiares e vizinhos seriam uma forma de tentar monitorar casos de violência doméstica. O major cita o trabalho do FBI, que, desde 2016, tem acompanhado mais de perto os casos de maus-tratos a animais, como uma referência: “Eles usam estas ocorrências para fazer um mapeamento criminal. Por exemplo, se está acontecendo muitos homicídios em uma determinada área e eles não têm nenhuma pista, eles começam a investigação pelas pessoas que tiveram registros de agressão a animais”, diz.

Nassaro diz, ainda, que o endurecimento das penas em crimes contra animais também pode ajudar a diminuir casos de violência doméstica. Atualmente, uma pessoa que maltratou um animal pode ficar detida de seis meses a um ano, porém são poucos os que vão para a detenção porque a infração é considerada de menor potencial ofensivo. No estado de São Paulo, o infrator pode ser autuado e ficar em liberdade após pagar uma multa. “É relevante que tenha um aumento de pena para este tipo de crime e que tenha uma avaliação psicológica dessa pessoa”, complementa o policial. “Ao salvar um bicho, também podemos estar salvando uma família”.

UOL

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