Natal é a 3ª capital com mais casos de violência contra moradores de rua

Com 145 notificações em três anos, Natal é a terceira cidade do Brasil com maior frequência de casos de violência contra população em situação de rua. O dado, divulgado no Boletim Epidemiológico 14 do Ministério da Saúde, é resultado de um estudo das notificações individuais registradas no Sistema de Informações de Agravos de Notificações (Sinan), nos anos de 2015, 2016 e 2017. Ao longo dos três anos capital potiguar fica atrás apenas de São Paulo, que teve 788 registros, e Salvador, com 395 notificações.
Natal foi, sozinha, responsável por 62,5% de todas as notificações registradas no Rio Grande do Norte. Ao longo dos três anos analisados no relatório, o Estado contabilizou 232 casos de violência motivados pela situação de rua em que se encontravam as vítimas. No Brasil, foram mais de 17 mil casos de violência cuja motivação foi o fato da vítima estar em situação de rua.

Sentado em uma calçada na avenida Rio Branco, Wallison Silva, de 20 anos, afirma que as situações são corriqueiras: vão desde brigas entre os próprios moradores de rua,  até mesmo ataques de seguranças privados para retirá-los da frente de alguma loja à noite.

“Um dia desses mesmo estava dormindo de noite debaixo da loja, aí chegou um [segurança] com uma arma na minha cabeça, dizendo que era pra eu sair de lá se não ele ia me matar”, conta. De acordo com o relatório, as agressões acontecem principalmente contra pessoas entre 15 e 24 anos (38,1%), de pele negra (54,8%) e sexo feminino (50,8%). Wallison se encaixa em dois dos principais grupos que costumam ser atacados.

“Aqui na rua é assim: o dia é pra dormir, porque de noite tem que ficar esperto”, afirma o jovem. “Se ficar de bobeira, levam as suas coisas todas. Ontem mesmo, dormi e levaram minha chinela”, completou, apontando para os pés. “Só naquele momento me dei conta de ele estava descalço”, contou.

A violência não se restringe, no entanto, a adultos e adolescentes. Até mesmo crianças com menos de um ano de idade aparecem nas estatísticas divulgadas pelo Ministério da Saúde.

Em todo Brasil, 201 bebês com menos de um ano tiveram que ser levados aos serviços de saúde após sofrerem algum tipo de violência na rua. Outras 102 crianças entre 1 e 4 anos de idade também foram vítimas e, ao elevar a faixa-etária dos 5 aos 14 anos, o número sobe para 1.504 agressões.

Segurando Roberta, de 3 anos, no colo, Micarla da Silva, de 23, conta que não foram poucas as vezes que tentaram roubar sua filha durante a noite. “Uma vez uma mulher quis pagar três homens pra tirarem ela de mim. Eles perguntaram por que, e ela disse que era porque eu era de rua, não tinha como criar a menina.”, relata.

“Esse pra mim foi um dos piores dias. Levantei e disse que se fossem levar ela, iam me levar junta também, nem que fosse morta”, conta. Micarla e Thiago passaram 7 anos nas ruas, onde chegaram devido à dependência química, e afirmam ter deixado a droga há um ano. Quando os entrevistei, fazia 15 dias que tinham conseguido alugar a primeira casa, na zona Norte da cidade.

O casal contou uma série de histórias: de proprietários de lojas que jogavam água sanitária nas calçadas à noite para evitar que eles dormissem na proteção das marquises, furtos de pertences pessoais, brigas com outros moradores e seguranças privados que costumam passar ameaçando os moradores verbalmente e com armas de fogo.
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About the Author: Terra Potiguar

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