‘Não entendo por que gay no futebol é notícia mundial’, diz Renato Gaúcho

“Ó lá. O Richard Gere tá vindo!”, ironiza Diogo Aída, 45, amigo e assessor de Renato Gaúcho, 56, que descia as escadas rumo ao campo de treinamento do Grêmio. O técnico não gosta de fotos, mas foi convencido pelo parceiro a posar para as lentes instantes antes de a entrevista começar.

O estilo é complementado pelo tradicional óculos escuro. E a voz rouca é justificada pelo clima de Porto Alegre. “Uma hora faz 20°C, no outro dia faz 4°C”, reclama Renato Gaúcho.

“Nesta semana, até discuti com a Carol [filha dele]. Se ela vier me visitar, vai acabar ficando só na cama. Ela está acostumada com 30°C. Vai vir para pegar uma friaca dessas?”.

A estudante Carolina Portaluppi, 25, mora no Rio. No Instagram, a jovem tem quase 1,5 milhão de seguidores. “Sou totalmente contra. Falo para ela que quanto menos aparecer, melhor. Mas a idade é uma merda, é difícil segurar.”

“Minha cabeça ia pirar com essas redes sociais. Meu telefone liga e recebe, mais nada”, afirma. “Se fosse jogador hoje em dia, com certeza entraria nisso. É uma doença mundial.”

Renato se aposentou há 20 anos. Se na época não havia chance de um “nude” seu vazar na internet, não faltavam convites para que posasse sem roupas na antiga revista G Magazine, para o público gay: “Mas aí é expor demais, entendeu? É a mesma coisa com a Playboy. Eles tentaram a Carol. Pô, tive vários desentendimentos com os caras. Não tem dinheiro que faça a minha filha posar”.

Renato roubava a cena. Certa vez, mostrou a cueca a pedido da apresentadora Xuxa e da plateia feminina. Em outra oportunidade, citou o nome de mães de colegas de vestiário, jogando uma rosa e um beijo a cada homenageada em uma matéria da Globo no Dia dos Namorados. “Foi uma brincadeira sadia. Eu não tava sacaneando ninguém, tava sacaneando numa boa, mas nada que machucasse ninguém.”

Sobre o politicamente correto, o atual treinador do Grêmio é enfático. “O que eu acho é o seguinte: se tem um gay na música é normal, se tem um gay ator é normal, se tem um gay em qualquer outra profissão é normal. Mas se tem um gay no futebol, vira notícia mundial. Por quê? Não entendo isso.”

“Se eu tenho um jogador gay, vou sacanear ele de manhã, de tarde e de noite. Eu quero é que ele jogue. O que não pode é misturar as coisas: entrar no vestiário de sacanagem por ser gay e levar mais para o lado gay dele do que para o trabalho. Aí ele tá fora comigo.”

Ele condena qualquer ato racista nos estádios. “Claro que sou totalmente contra. Mas os caras têm a mania de dizer que só acontece no Rio Grande do Sul. Não existe isso. Acontece em muitas partes do mundo e do Brasil, mas é só daqui que os caras falam. E tem uma cobrança maior em cima da torcida do Grêmio. Não entendo o porquê.”

Em 2014, o time gaúcho foi eliminado da Copa do Brasil por ofensas de uma torcedora dirigidas ao goleiro negro Aranha, do Santos. Uma das imagens mostrava ela gritando “macaco”. Em maio deste ano, um vídeo flagrou um grito de “macaco”, com uma voz feminina, dirigido ao jogador Yony González, do Fluminense, quando ele comemorava um gol marcado contra o Grêmio em Porto Alegre.

Renato diz ter acompanhado a Copa do Mundo feminina, que termina neste domingo (7). “Tem espaço para crescer, mas vai depender delas. Achei o nível até bom, mas elas vão ter que remar muito. Tem muito preconceito ainda.”

“O que as meninas, com todo respeito, não podem fazer de maneira alguma, é se comparar aos homens. Isso nem daqui a dois séculos. Adoro a Marta, é a melhor jogadora do mundo, mas não existe ela falar que só vai usar tal chuteira se pagarem como a um jogador.” A atleta jogou com um calçado preto e sem marca para denunciar o abandono do espaço pelos patrocinadores.

“Nada contra, mas nunca pensei [em treinar a seleção feminina] porque meu sonho é treinar a seleção masculina. Tem uma diferença muito grande ainda.”

Após conquistar cinco títulos nos últimos três anos pelo Grêmio, Renato seria um dos favoritos a assumir o comando da amarelinha caso Tite deixe o cargo. A informação foi dada por Juca Kfouri, colunista da Folha, na quinta-feira (7).

“Se um treinador falar que não quer comandar a seleção, ele tem duas coisas na cabeça: ou não se garante, ou tem medo. Meu sonho é esse”, afirma. “Se vou chegar lá, eu não sei. Quem decide isso é a CBF. Mas a minha parte eu tô fazendo.”

A personalidade não mudaria, garante. “Prefiro errar tomando decisões do que me omitindo. Se é para chegar numa seleção e ser marionete, é melhor não ir. Eu iria com os poderes. Até porque a primeira cabeça a rolar no futebol é sempre a do treinador.”

“Ele tem que absorver todos os problemas de todos os jogadores”, segue. “Precisa ter todos eles com a cabeça no lugar. É um trabalho bom, mas muito desgastante.”

Ele acredita que o futebol brasileiro não está pronto para abolir o regime de concentração antes dos jogos. “Aprendi com tudo o que eu errei e procuro passar isso para eles. Coloco várias regras. Se não tiver regras, vira bagunça.”

Defende Neymar e diz que acredita na inocência do atleta em relação à acusação de estupro. “Não tenho dúvida alguma. Pô, ele não precisava fazer aquilo que ela fala que ele fez. Quem entende do babado, vê que alguém está querendo se dar bem na história.”

“Mas o erro dele está aí: tive a idade dele, mas nunca precisei trazer uma mulher de outro país. Pô, o cara, na minha opinião, só não vai ganhar o prêmio de melhor do mundo se não quiser. Mas eu não sou o procurador do Neymar ou o pai do Neymar.”

Em Porto Alegre, Renato vive em um hotel. “Um Alcatraz, você quer dizer”, brinca. Não sai nem para jantar. Diz que o assédio da torcida gremista na rua o impede. “Eu queria uma casa que tivesse quadra defutevôlei. Não encontrei. Então se for para ir para uma casa e ainda ter que contratar uma empregada para fazer minha comida, lavar minha roupa, passar minha roupa, prefiro ficar no hotel que tenho tudo na hora que eu quero.”

Mora em um quarto grande. “É quase uma suíte presidencial”, intervém o assessor. Dirige um carro que ganhou como prêmio após ser considerado o melhor técnico da Libertadores em 2017.

O cenário contrasta com a infância vivida na Serra Gaúcha. “Minha família era muito pobre, de 13 irmãos. Comecei a trabalhar numa padaria com 12 anos. Trabalhava num período e estudava em outro.”

Chegou ao Grêmio em 1980, aprovado em um teste. “Não sabia onde eu ia chegar. Meu objetivo era ser jogador para ajudar minha família.” Parou de jogar aos 36, após alcançar a fama e conquistar títulos pelo clube gaúcho, equipes cariocas e seleção. “Enquanto todo mundo aproveita feriado, sábado e domingo, o jogador está preso. Todos os meus irmãos se casaram, e eu não fui ao casamento de nenhum.”

Hoje, na fria capital gaúcha, sente falta do Rio. “A coisa está melhorando com esse governador [Wilson Witzel (PSC)]. Tem que melhorar mais, óbvio. Torço para que ele dê continuidade a esse trabalho.”

Aprova o governo de Jair Bolsonaro. “Votei nele. É meu presidente. O Bolsonaro e o Sergio Moro são pessoas do bem que querem o bem do Brasil. Na minha opinião, quem é contra esses caras é contra o crescimento do Brasil.”

Política é um dos assuntos recorrentes entre Renato e os familiares, seja em Porto Alegre ou no Rio. Assim como a filha, a esposa Maristela Bavaresco, 56, mora na capital fluminense. “A gente se fala todo dia. Ela vem para cá uma vez a cada 15 dias mais ou menos.”

“Não tem o que fazer. É assim com a maioria dos treinadores. A vida é assim.”

Mônica Bergamo

Jornalista e colunista.

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