Índia, Colômbia e Vietnã mostram ao Brasil que pobreza não justifica omissão

O avanço da Covid-19 tem deixado claras as dificuldades de adaptar as lições que deram certo na Europa ou na Ásia a países mais pobres. Mesmo em locais onde o novo coronavírus tem deixados marcas de sua devastação, é possível encontrar exemplos de êxito que deveriam ser analisados com afinco no Brasil.

Na falta de uma coordenação centralizada do governo federal, o combate se torna necessariamente um dever das autoridades locais. Se não temos condições de adotar as mesmas medidas que Islândia, Nova Zelândia, Japão ou China, não há motivo algum para não buscar inspiração em países de realidade mais próxima à brasileira, como Índia, Vietnã ou Colômbia.

Tome o exemplo de Dharavi, favela de maior densidade populacional na Ásia, situada perto do centro financeiro de Mumbai, na Índia. Lá vivem quase 800 mil pessoas. Um barraco de 10 metros quadrados abriga famílias de até sete pessoas, e 80 dividem um banheiro. Impossível falar em “isolamento” ou “distanciamento social”. Mesmo assim, Dharavi está derrotando a Covid-19.

“A única opção foi caçar o vírus em vez de esperar os casos chegarem. Trabalhar proativamente em vez de reativamente”, afirmou Kiran Dighavar, responsável pelo combate ao vírus em Dharavi, segundo o site LiveMint. Desde abril, as autoridades bateram em mais de 47 mil portas medindo temperatura e níveis de oxigênio em quase 700 mil pessoas. Houve lockdown rígido e testes de todos os que apresentassem sintomas. Infectados eram levados a escolas e ginásios convertidos em centros de quarentena.

O resultado, segundo o relato de Sighavar, foi uma queda de dois terços no número de casos diários do início de maio a meados de junho, de 60 para 20. No resto do país, os números quadruplicaram, transformando a Índia num dos maiores focos de Covid-19 no planeta. Em Dharavi, mais da metade dos que testatam positivo se recuperaram, ante 41% no resto do país. O envolvimento entre governo e lideranças comunitárias, com distribuição de alimentação gratuita, foi crucial para a motivação.

Outro exemplo indiano citado com frequência é o estado de Kerala, onde foi registrado o primeiro caso de Covid-19 no país, ainda em janeiro. Quando o premiê Nahendra Modi decretou quarentena, em 24 de março, Kerala era o estado mais atingido, com um quinto dos quase 600 casos. Hoje é o 18º dos 34 estados indianos, com menos de 1.500 dos 175 mil casos ativos. Das 13.706 mortes registradas na Índia, apenas 21 ocorreram em Kerala, segundo o Hindu.

A estratégia de Kerala, cuja população está em torno de 35 milhões, foi comandada por uma ex-professora de ciências de 63 anos e óculos grossos, a ministra da Saúde K.K. Shailaja. Desde que vieram à tona os primeiros casos, ela pôs em marcha uma estrutura de testagem e rastreamento que chegou a manter 170 mil pessoas isoladas, além de garantir abrigo e alimentação a 150 mil trabalhadores temporários que não podiam voltar para casa (a maioria, de países do Golfo Pérsico).

A principal arma ao alcance de Shailaja é um sistema público de saúde abrangente, estabelecido ao longo de décadas por governos do partido comunista local, com centros de atenção primária em cada pequena cidade. Na Índia, Kerala se destaca como estado com maior índice de alfabetização, maior expectativa de vida e menor mortalidade infantil. Mais que de esquerda, as políticas públicas têm sido consistentes.

Uma outra vantagem foi decisiva: Kerala enfrentou em 2018 um surto de outro vírus, o Nipah, bem mais letal que o novo coronavírus Sars-CoV2. Também originário em morcegos, causador de uma infecção cerebral de alta letalidade, o Nipah matou na época 21 dos 23 infectados em Kerala. Foi combatido com agilidade e deixou a memória de como é essencial manter uma estrutura de rastreamento e isolamento ágil e eficaz. Diante do Sars-Cov2, todos já sabiam o que fazer, revelam relatos na MIT Technology Review, no Washington Post e na BBC.

O Vietnã é outro país onde um governo de esquerda deixou um sistema de saúde público que se revelou eficaz para deter o coronavírus. Até agora, houve apenas 349 casos confirmados e nenhuma morte por lá. Estava também presente no Vietnã a memória do combate à Sars em 2003 e à gripe H1N1 em 2009.

Além de aplicar testes em massa, quase 45 mil pessoas foram mantidas sob quarentena em março, metade delas em campos militares, segundo a Reuters. Como a China, o Vietnã é um regime autoritário, disposto a manter sob lockdown e vigilância policial cidades de até 10 mil habitantes e de afastar portadores do vírus das próprias famílias para isolá-los. Dificilmente suas lições têm alguma valia em países livres, de culturas abertas, como o Brasil.

Não é o caso, contudo, de Medellín, na Colômbia, cidade de 2,5 milhões de habitantes que, até agora, registrou apenas sete mortes pelas estatísticas oficiais. É ubíquo por lá o cenário de favelas e dificuldade de isolamento da Índia ou do Brasil. O principal recurso usado para deter a epidemia foi um aplicativo, o Medellín Me Cuida, usado para rastrear os infectados, mas também para garantir que a população carente tivesse acesso a comida e ao dinheiro garantidos pelo governo.

“Impossível combater o vírus sem informação”, afirmou à Associated Press o prefeito Daniel Quintero, um engenheiro de apenas 39 anos. Como em Kerala ou no Vietnã, foi crucial ter agido cedo. Cerca de 1,3 milhões de famílias se registraram, permitindo ao governo manter o controle sobre a localização dos infectados e destinar recursos – sobretudo testes e oxímetros – às áreas de maior risco. A eficácia da testagem contrasta com o resto do país

Naturalmente, a coleta maciça de dados despertou preocupação com a privacidade e levou a duas ações na Justiça. O governo teve de fazer alterações no aplicativo depois de perder uma delas. Não se trata de uma preocupação vazia. O grau de invasão da vida dos cidadãos desperta preocupação nos países mais bem-sucedidos no combate ao vírus, como Coreia do Sul ou Cingapura.

Autoritarismo e invasão de privacidade são riscos inerentes à centralização de atividades em qualquer governo. Mas não são pretextos para a omissão do Estado. O uso ágil e racional dos recursos de saúde é fundamental. A emergência sanitária exige uma organização que não é incompatívek com a democracia. Se há algo que todos os exemplos têm em comum, não é a linha ideológica ou o grau de autoritarismo dos governos. É o simples fato de não negarem a realidade científica e não se furtarem a agir o mais rápido possível para salvar vidas.

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