Hapvida demite médico e pressiona por uso de cloroquina para Covid-19

Uma das maiores operadoras de saúde privada do país, a Hapvida Saúde demitiu um médico e ameaçou desligar outros profissionais que não adotassem a hidroxicloroquina no tratamento de pacientes com síndrome gripal suspeitos de Covid-19.
Ouvimos quatro médicos de dois estados que relatam pressões e teve acesso a mensagens de pelo três grupos de WhatsApp com a participação de profissionais do grupo Hapvida.

Em um desses grupos, um chefe de plantão informa que o grupo Hapvida está auditando os prontuários e fazendo “um ranking de médicos ofensores (os que não prescrevem a hidroxicloroquina)”. Na mesma mensagem, ele afirma que orientação é demitir aqueles que apareçam duas vezes no ranking.

Em outro grupo, o chefe responsável por uma unidade de saúde da Hapvida é direto e diz que não cabe discussão sobre a hidroxicloroquina. Ele faz um alerta para que os profissionais parem de informar os pacientes sobre o risco da medicação.

Na mesma mensagem, avalia que é necessário impedir o retorno de pacientes graves e alega que uma empresa do tamanho da Hapvida não faria algo sem ter algum tipo de respaldo. No entanto não apresenta provas científicas de eficácia do tratamento.

A pressão, além de configurar um possível assédio moral, também vai de encontro à resolução do Conselho Federal de Medicina que estabelece que cabe ao médico, caso a caso, avaliar a possível indicação da hidroxicloroquina para pacientes infectados com o novo coronavírus.

Em nota, o grupo Hapvida informou que a que “a recomendação do tratamento é uma soberania médica, que leva em conta o histórico individual de saúde de cada paciente”.

Ainda no início da pandemia no Brasil, a Hapvida estabeleceu um protocolo que determina a prescrição de cloroquina para todos os pacientes sem comorbidades com mais de 30 anos que apresentem sintomas por mais de quatro dias. Há também a previsão de uso de ivermectina, um antiparasitário, e prednisona, um corticoide.

As diretrizes indicam ainda o uso do remédio em pacientes com 60 anos ou mais, independentemente das comorbidades apresentadas.

O uso de medicamento, contudo, não é consenso estre as entidades médicas. A OMS (Organização Mundial da Saúde) anunciou nesta segunda-feira (25) a suspensão dos estudos com a hidroxicloroquina para reavaliar sua segurança antes de retomá-los. Na quarta (27), retirou a droga dos estudos.

A decisão foi tomada após estudo publicado na revista científica britânica The Lancet indicar que o uso do remédio estava ligado a maior risco de arritmia cardíaca e de morte em comparação com pacientes que não usaram os medicamentos.

No Brasil, três entidades —Associação de Medicina Intensiva Brasileira, da Sociedade Brasileira de Infectologia e da Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia— recomendam a não utilização de hidroxicloroquina, cloroquina e também de suas associações com azitromicina.

Mesmo com as indicações contrárias de entidades científicas, a Hapvida não só manteve o protocolo de uso como passou a vender o medicamento em suas unidades no mês de abril a preço de custo, R$ 18 o tratamento completo.

A partir de maio, o grupo adquiriu o medicamento e passou a distribuí-lo gratuitamente em unidades de pronto atendimento, prática que não acontece com outros remédios.

A hidroxicloroquina foi comprada por meio da Fundação Ana Lima, braço social do grupo Hapvida, e a sua distribuição foi anunciada como “uma ação de solidariedade para combater a Covid-19”.

Em nota à imprensa divulgada em 6 de maio, o presidente da Hapvida, Jorge Pinheiro, defendeu a distribuição da hidroxicloroquina e afirmou que já possuía medicamento para o tratamento de 20 mil pessoas. “Mas estamos trabalhando para ampliar essa quantidade”, informou.

Ao mesmo tempo que passou a distribuir gratuitamente o medicamento, o grupo Hapvida, segundo relatos de médicos de Pernambuco e Ceará, passou a pressionar os profissionais a prescrevê-lo em reuniões presenciais e também nos aplicativos de mensagens. Com medo de represálias, os médicos que conversaram om a reportagem pediram anonimato.

Um deles, que atuava em uma das unidades do grupo no Ceará, foi desligado do quadro de médicos plantonistas do Hapvida no dia 19 de maio.

Ele afirma que nove dias antes foi procurado pessoalmente por um coordenador médico em seu consultório, que indagou o porquê de não estar prescrevendo o medicamento para os pacientes suspeitos de Covid-19.

Em resposta, ele citou estudos científicos que apontam a ineficácia e os riscos do uso do medicamento. Manteve a sua posição de não receitar a hidroxicloroquina para casos leves e acabou sendo desligado do quadro de plantonistas na semana seguinte.

Um médico que atua no grupo Hapvida em Pernambuco informou que, mesmo contra sua vontade e entendimento profissional, tem prescrito o chamado kit Covid-19 para doentes atendidos muitas vezes com quadro gripal bastante leve.

Ele informou que, em um plantão de 12 horas, chega a receitar de maneira obrigatória a cloroquina para mais de dez pacientes. O profissional destacou ainda que os médicos que só prescrevem o remédio em casos mais graves estão sendo repreendidos pelas chefias imediatas.

Uma médica com poucos anos de experiência, que trabalha em um dos hospitais da Hapvida em Pernambuco, disse que se sente culpada em ter que prescrever a hidroxicloroquina contra os seus princípios profissionais. Ela alega que não tem saída porque precisa do emprego para pagar suas contas.

Na avaliação dos médicos ouvidos pela Folha, não há sentido em fazer uso da hidroxicloroquina indiscriminadamente, sobretudo nos casos pacientes com sintomas leves que não estão internados em uma unidade hospitalar.

Nestes casos, os riscos seriam ainda maiores, já que não há possibilidade de monitoramento periódico por meio de eletrocardiograma, nem de intervenção rápida dos médicos em caso de efeitos colaterais como arritmias cardíacas.

O Cremepe (Conselho Regional de Medicina de Pernambuco) recebeu denúncia dos médicos sobre as ameaças relatadas e vai abrir sindicância para apurar o caso.

O vice-presidente do órgão, Maurício Matos, disse que os médicos não podem ser obrigados a prescrever qualquer tipo de medicamento.

“Não há obrigação a seguir. Quem tem autonomia plena para decidir é o médico. Principalmente com uma droga que não tem comprovação de efeitos em nenhum estudo de qualidade no mundo. Até agora, as pesquisas apontam que não há benefício e pode, inclusive, causar prejuízo para pacientes”, disse.

Matos informa que o médico não pode sofrer qualquer tipo de pressão para tratar o paciente com algo que ele não concorde.

Sugere que aqueles profissionais que temam sofrer represálias denunciem o problema a suas entidades de classe. “Os sindicatos podem nos encaminhar essas denúncias e os médicos são preservados”, diz.

Em resposta à Folha, a Hapvida informou que segue rigorosamente as diretrizes da Abramge (Associação Brasileira de Medicina de Planos de Saúde) no que diz respeito ao enfrentamento da Covid-19.

A empresa comunicou que vem acompanhando as iniciativas lideradas pelo Ministério da Saúde para minimizar os impactos da doença.

O grupo destacou que o uso do remédio, segundo observações clínicas, tem demonstrado resultados positivos, principalmente quando ministrado nos primeiros dias de sintomas.

Em uma nova nota enviada após a publicação desta reportagem, a Hapvida informou que sempre respeitou a soberania médica: “O profissional médico é sempre a autoridade máxima, quando o principal compromisso é salvar vidas”.

Segundo a empresa, 55% dos pacientes com suspeita de Covid-19 receberam a hidroxicloroquina por prescrição médica e dando seu consentimento. Outros 45% não receberam porque não houve prescrição médica.

“Não há perseguição aos profissionais que não quiseram fazer uso da medicação. Nosso corpo médico das emergências e urgências é formado por 2.000 médicos. Se houve alguma demissão, seguramente, esse não foi e nem será o fator decisório”, informou o grupo.

Sobre a doação gratuita da hidroxicloroquina aos pacientes, a empresa disse ser esta “uma forma de afiançar o acesso ao tratamento, visto que a medicação não é mais encontrada à venda nas farmácias das cidades”.

OS ESTUDOS SOBRE USO DA CLOROQUINA CONTRA O CORONAVÍRUS

  • Estudo do francês Didier Raoult

    Nº de pacientes: incerto / Resultados: Efeito positivo identificado em 20 pacientes. Entretanto, o estudo não foi realizado em duplo-cego, ou seja, não houve comparação com pacientes que receberam placebo. Além disso, seis voluntaríos que tiveram piora (um deles morreu) foram excluídos do estudo. O periódico que publicou a pesquisa afirmou que o estudo “não atendia aos padrões esperados, especialmente pela falta de explicações dos critérios de inclusão e triagem de pacientes”

  • Estudo no Amazonas

    Nº de pacientes: 81 / Resultado: Benefício discreto no uso da dose baixa. O uso de dose alta aumenta o risco de alteração da frequência cardíaca (arritmia) e pode levar à morte. Pelo menos 11 pacientes do grupo que recebeu alta dose morreram

  • Manuscrito da Prevent Senior

    Nº de pacientes: 636 / Resultados: inconclusivos. O estudo não tinha autorização do Conep (Comissão Nacional de Ética em Pesquisa) para ser realizado quando os testes começaram a ser feitos. O estudo tem indícios de fraude. Além disso, a metodologia não correspondia aos padrões de pesquisa internacional e o próprio autor do estudo disse à Folha que a forma como sua pesquisa foi feita impede que sejam tiradas conclusões sobre o uso da cloroquina contra o coronavírus

  • Estudo publicado no The New England Journal of Medicine

    Nº de pacientes: 1.376 / Resultados: O estudo observacional (sem intervenção médica) analisou a administração de hidroxicloroquina sozinha ou associada a azitromicina em pacientes com coronavírus para saber se havia benefício para evitar morte ou intubação. Não houve. Entre os pacientes, 811 receberam hidroxicloroquina e 565 não receberam. No fim do estudo 232 pacientes haviam morrido, 1.025 receberam alta e 119 permaneceram internados. Durante o estudo, 346 pacientes morreram ou foram intubados. Segundo os autores, o resultado indica que não há benefício do uso da cloroquina para evitar intubação ou morte

  • Estudo publicado no Jama

    Nº de pacientes: 1.438 / Resultados: O estudo observacional analisou dados de pacientes internados em 25 hospitais da área metropolitana Nova York entre 15 e 28 de março. Entre os pacientes, 735 receberam hidroxicloroquina e azitromicina (dos quais quase metade iniciou o uso das drogas antes ou de modo concomitante ao uso de ventilação mecânica), 271 só hidroxicloroquina, 211 só azitromicina e 221 nenhuma dessas drogas. Pacientes foram acompanhados até 24 de abril (45 ainda estavam hospitalizados). Pesquisa não encontrou redução de mortalidade por Covid-19 entre os que foram medicados com hidroxicloroquina (com e sem associação com azitromicina).

  • Estudos publicados no BMJ

    Estudo 1 – Nº de pacientes: 150 / Resultados: O estudo randomizado e controlado foi feito com pacientes com quadro leve a moderado (somente dois casos eram graves) em 16 unidades de saúde da China. Entre os participantes, 75 receberam hidroxicloroquina mais o tratamento padrão. Os outros 75 foram submetidos somente ao tratamento padrão. Com testes PCR, os cientistas avaliaram se o Sars-CoV-2 persistia nos pacientes. Os resultados não apontaram que a hidroxicloroquina, aliada ao tratamento padrão, traga benefícios na eliminação do vírus do corpo da pessoa Estudo 2 – Nº de pacientes: 181 / Resultados: O estudo observacional analisou pacientes (84 que receberam hidroxicloroquina e 89 que faziam parte do grupo controle) com quadros severos de Covid-19, que necessitavam de ajuda com oxigênio para respirar, mas que não estavam em UTIs. Os cientistas analisaram a sobrevivência das pessoas sem a necessidade de internação em UTI. Os dados mostram similaridades de desempenho entre os grupos e efeitos adversos relacionados à hidroxicloroquina.

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