Favela do Mosquito: estado de sítio

Fundadas há mais de um século por migrantes do sertão nordestino que fugiam da seca severa que assolava o interior do RN, as comunidades do Mosquito e Beira-Rio estão localizadas nas margens do Rio Potengi e da sociedade. Atualmente, são palco de uma disputa diária de facções criminosas rivais por território. A presença do estado é pontual e letal: ocorre apenas quando a polícia se faz presente, por minutos ou poucas horas em busca de criminosos. No meio do fogo cruzado, crianças, adultos e idosos, reféns de armas de fogo e preconceito.

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Na comunidade do Mosquito, as casas, a maioria com apenas um ou dois quartos, estão abandonados. O cenário se repete em quase todos os locais: resto de móveis e eletrodomésticos jogados no chão, pichações da facção criminosa Primeiro Comando da Capital (PCC) nas paredes, sangue no chão e lixo. Os moradores que conseguem, deixam o local e migram para comunidades vizinhas, sob o aval da facção criminosa.

Uma das moradoras ouvidas pela TRIBUNA DO NORTE relatou que teve que deixar a casa às pressas na madrugada do final do mês passado. Ela pediu para não ser identificada por medo de retaliação, mas conta que colocou alguns pertences dela e dos seis filhos em uma mala e correu o mais rápido que pôde para a favela do Japão, localizada na zona Oeste de Natal. Naquela noite, o facção potiguar Sindicato do RN tentou tomar o local. Ela disse que não teve outra escolha e fugiu.

O ambiente encontrado pela reportagem nesta terça-feira (24), em visita a Comunidade do Mosquito refletia todo o significado que a expressão “abandono social” reflete: mais de 25 casas vazias, ruas sem movimento, muitas marcas de tiros nas paredes, comércios fechados e medo de falar por parte das pessoas que restaram. Medo da polícia e medo da facção. Não há posto de saúde, escolas, quadras de esporte, geração de renda ou projetos sociais para os moradores, que na ausência do Estado são obrigados ou optam por obedecer ordens de ‘poderes paralelos’.

Uma base móvel da Polícia Militar, instalada na frente da comunidade do Mosquito, é alvo de reclamações por parte dos policiais. Para eles, a presença da polícia naquele local inibe apenas que tiroteios ocorram na Ponte de Igapó e apavorem a população que passa de carro particular ou transporte coletivo. Quem mora dentro do Mosquito, ao contrário, continua sofrendo as conseqüências da guerra instalada no local. Os policiais também reclamam da condição física da base, sem banheiro ou proteção mínima.

Desde que a guerra entre as duas facções criminosas se acirrou, em março, 12 crianças moradoras da Comunidade do Mosquito abandonaram a creche da Associação Nossa Senhora das Doras, localizada na Granja, comunidade vizinha. Crianças agressivas, traumatizadas pela morte dos pais, carregando marcas da violência com que convivem deixam de acreditar que os seus destinos serão diferentes dos pais.

Área
Consideradas zonas de proteção ambiental, as áreas do Mosquito e Beira-Rio estão localizados na ZPA 8, que tem como objetivo a proteção do ecossistema de manguezal e estuário do Potengi/Jundiaí. São áreas de mangue e domínio de ferrovias, ou seja, as construções deveriam ter 15 metros de distância da linha do trem. Juntas, as comunidades do Mosquito e Beira-Rio abrigam 546 residências, de acordo com o último senso do Instituto Brasileiro de Geografia Estatística (IBGE).

O titular da Secretaria Municipal de Habitação Social, Regularização Fundiária e Projetos Estruturantes, Carlson Geraldo Correia reconhece que o local é impróprio para construções e que a prefeitura está fazendo estudos para tentar recuperar a área. “Talvez cadastrar pessoas em programas habitacionais do Minha Casa Minha Vida”, disse o secretário.

Região violenta

Favela do Mosquito
323 domicílios estão instaladas no Mosquito
1.156 pessoas moram na comunidade
570 são homens
586 são mulheres

Beira-Rio
223 domicílios estão instaladas no Beira-Rio
803 pessoas moram na comunidade
404 são homens
399 são mulheres

18 pessoas foram mortas no Mosquito e Beira-Rio desde de janeiro até julho de 2018

Fonte: Censo de 2010 do IBGE e Obvio

 

Tribuna do norte

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