Como Alexandre Frota se tornou porta-voz do cinema no governo Bolsonaro

Em meio à sua maior crise das últimas décadas, o cinema brasileiro ganhou em Alexandre Frota um improvável interlocutor com o governo. O deputado federal, que na campanha eleitoral bradou contra “mamatas”, “panelinhas” e “cartas marcadas” do meio cultural, é quem toma as dores do setor, temeroso diante de uma eventual paralisia da Ancine, agência que fomenta e fiscaliza a área.

“Não tenho interesse nenhum em diretor, produtor, produtora, em ser ator… Já deixei de ser artista há muito tempo”, diz o político neófito. “Ninguém é bobo. Não se trata da esquerda ou da direita. Aqui se trata de nós passarmos a cultura a limpo.”

O deputado tem feito barulho na ausência de uma pasta específica para a área, hoje abrigada dentro do Ministério da Cidadania, e no vácuo de interesse pelo assunto entre integrantes de seu próprio partido. “Quem fala de cultura no PSL sou eu, e ninguém mais”, afirma.

No fim de março, Frota posou para foto ao lado de produtores como Fabiano Gullane (“Bingo”, “Até que a Sorte nos Separe”) e Andrea Barata Ribeiro (“Cidade de Deus”, “Xingu”), mas o encontro acabou deixando os dois lados um pouco chamuscados.

Os cineastas colheram críticas de parte de seus colegas pela proximidade com um político ligado a Bolsonaro e que, dois anos atrás, xingava Chico Buarque de “filho da puta”. Já o deputado foi alvejado entre alguns de seus apoiadores, que notaram que Ribeiro produziu um filme como “Marighella”, de Wagner Moura, sobre o guerrilheiro que é um dos maiores ídolos da esquerda brasileira.

Frota diz defender a “produção cinematográfica, “independente de ideologias”. “O meu interesse é acabar com a farra da cultura, seja ela no cinema, seja ela no teatro, seja ela no show business.” Crê que o Estado tem, sim, o dever de fomentar as atividades artísticas no país, “que geram um grande PIB e postos de trabalho.”

Na contramão de Bolsonaro, o deputado defende a volta do Ministério da Cultura e critica Henrique Medeiros Pires, atual secretário de Cultura do governo federal e que não se pronunciou a respeito de crises como a da Ancine. “É frouxo”, diz Frota.

Por enquanto, seu estardalhaço tem sido mais retórico do que prático. Assim como faz o presidente, é às redes sociais que o congressista recorre com frequência para divulgar seus feitos e opiniões. Ali, não passa um dia sem que pelo menos um tuíte seu cite algum tema da cultura, incluindo compartilhamento de reportagens e músicas do Guns N’ Roses.

A maioria das postagens sobre a área têm alvo, os ministros Osmar Terra (Cidadania) e Onyx Lorenzoni (Casa Civil), e não escondem uma disputa de poder dentro do próprio governo. Sobre o primeiro, Frota escreveu que “vai levar a cultura no Brasil ao fundo do poço”. A respeito do segundo, diz que é preciso ser afastado para que o governo não vá para o “caminho do brejo”.

Ele também desanca a ala do ideólogo Olavo de Carvalho (um “velho” e “chato pra cacete”, segundo disse nesta semana). É o caso do chanceler Ernesto Araújo e da atual diretora de negócios da Apex (Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos), Letícia Catelani, que estuda cortar o apoio ao programa Cinema do Brasil, de promoção da produção nacional em festivais estrangeiros.

Nessa disputa de poder entra a indicação do próximo diretor da Ancine, hoje na maior crise desde que a agência reguladora foi criada, em 2001. O Tribunal de Contas da União emparedou a entidadeporque não concorda com a metodologia que ela usa para analisar a prestação de contas dos projetos de filmes e séries que recebem recursos públicos. E fez um ultimato: ou muda a forma de fiscalização ou está suspensa a liberação de novas verbas para o audiovisual.

A crise ameaça a permanência do atual presidente da agência, Christian de Castro, afilhado político de Sérgio Sá Leitão, ex-ministro da Cultura no governo Temer e outro dos alvos preferenciais da metralhadora verbal do deputado.

Castro está desgastado com os servidores da Ancine e com o setor, que o critica por falta de transparência na forma como tem manejado o imbróglio com o TCU, impasse que ameaça paralisar a atividade. Ele ainda é objeto de um inquérito sigiloso que ronda os corredores da Polícia Federal.

Frota protocolou um pedido na Comissão de Cultura da Câmara para que o atual presidente seja afastado da Ancine, pela “lisura das investigações”. Enquanto isso, Castro fez as suas próprias costuras políticas e se reuniu, na última quarta (10), com o deputado federal Kim Kataguiri (DEM-SP), em Brasília.

Para ocupar uma vaga na diretoria da agência, que hoje tem três de seus quatro quadros preenchidos, Terra, Lorenzoni e Frota têm jogado os seus dados.

O primeiro aposta em algum nome técnico, sem relação com o setor, mas ligado à Controladoria-Geral da União. O ministro da Casa Civil endossou a candidatura de Moacyr Góes, diretor dos filmes “Dom” e “Abracadabra”, mas sem experiência com a gestão de projetos. Já o deputado defendeu que fosse empossado seu advogado, Cleber Teixeira.

“É uma pessoa de confiança minha e de Jair Bolsonaro”, afirma Frota. “Nós almoçamos, e o próprio presidente havia me dito que ele poderia se enquadrar, até por não estar viciado com o sistema do passado.”

O deputado afirma que Onyx “nem se lembrava” da existência da Ancine. “Depois de todas as informações que eu levei a ele é que passou a se interessar mais”, diz.

No próximo dia 24, o ministro Osmar Terra fala na Comissão de Cultura na Câmara. Na pauta estarão assuntos como o impasse da Ancine e as mudanças na Rouanet. Frota quer levar ainda indagações sobre a ligação entre a agência de cinema e o BRDE (Banco Regional de Desenvolvimento do Extremo Sul), agente financeiro que opera as linhas de financiamento de projetos audiovisuais.

“É isso que a gente vai saber nos próximos capítulos dessa novela.”

Folha de São Paulo
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