100 dias de pandemia no RN: veja evolução da Covid-19 no estado

Há 100 dias, a pandemia do novo coronavírus chegava ao Rio Grande do Norte pela capital Natal. Desde então, 16 mil pessoas foram infectadas com a Covid-19 e outras 693 tiveram a vida interrompida por causa da doença.

O primeiro registro do novo coronavírus ocorreu em 12 de março e – em média – 160 pessoas tiveram o diagnóstico positivo notificado da doença todos os dias, desde o início da pandemia até este sábado (20). A primeira morte ocorreu duas semanas após a confirmação do primeiro caso, no dia 28 de março em Mossoró.

Neste intervalo de 100 dias, a pandemia alterou bruscamente a rotina dos potiguares. Serviços deixaram de ser prestados presencialmente, prédios públicos mudaram o funcionamento, eventos foram suspensos e locais públicos tiveram que ser isolados. Pouco mais de três meses após a chegada da doença, a rede pública de saúde sofre com superlotação e falta de leitos para tratar a Covid-19.

A doença rapidamente se espalhou por todo estado, chegando a municípios do interior, regiões periféricas, aldeias e presídios. Das 167 cidades potiguares, apenas sete não registram casos confirmados de coronavírus até este sábado (20), de acordo com boletim epidemiológico da Sesap.

“O que percebo nesses 100 dias de pandemia é que ela vem seguindo o curso que a gente já esperava. Epidemiologistas, infectologistas e pessoas que pesquisam de maneira séria já vinham mostrando que – caso as medidas de isolamento não fossem cumpridas – a doença ia sofrer essa interiorização, que é o que a gente vê hoje”, destaca Luiz Paulo Rosa, médico de família e comunidade, que atua nas cidades de Sítio Novo e Natal.

E acrescenta: “No interior os casos ainda não são em grande número, mas não sabemos se é por causa da subnotificação ou se é porque as pessoas estão isoladas e protegidas. Mas considerando o atual estado das coisas, essa interiorização vai acontecer cada dia mais e residir no interior vai deixar de ser um fator de proteção e vai passar a ser um fator de risco”.

Um estudo da Universidade de Estado do Rio Grande do Norte (UERN) revelou que o estado pode ter até seis casos não notificados de Covid-19 para cada caso confirmado oficialmente da doença. A pesquisa mostrou ainda que a subnotificação de óbitos é de 100%. Isto é, para cada morte notificada, outra deixa de ser contabilizada.

Para os próximos 100 dias, a infectologista Marise Freitas alerta para a necessidade da manutenção das medidas de distanciamento para conter a pandemia. A especialista projeta uma reabertura gradual da economia e reforça que o número de casos continuará alto.

“O esforço até aqui valeu a pena. Precisamos entender que o vírus vai continuar circulando e na hora que adotarmos essa retomada, que seguramente vai acontecer, nós precisaremos estar atentos à pequenas ondas de elevações de casos e de óbitos. Temos que continuar mantendo os cuidados de distanciamento e higiene, sobretudo nos espaços públicos. É importante a população entender que quando nós falamos em abertura, isso não significa ir à rua e achar que tudo voltou ao normal porque isso não vai acontecer nos próximos 100 dias”, explica Freitas.

Pessoas utilizam máscaras para fazer compras em supermercados — Foto: Pedro Vitorino/Cedida

Pessoas utilizam máscaras para fazer compras em supermercados — Foto: Pedro Vitorino/Cedida

Dados

Mesmo com mais de três meses de pandemia, a Covid-19 dá sinais de aceleração no RN. Do total de casos confirmados e mortes notificadas, mais da metade (53%) ocorreram nos primeiros 20 dias de junho. Ou seja, entre março e maio foram registrados 7.402 casos, contra 8.637 apenas em junho.

Para se ter uma ideia do rápido crescimento da doença, o estado levou 48 dias para registrar os primeiros 1 mil infectados. Os casos dobraram em ritmo mais rápido: em 13 dias, o RN registrou 2 mil confirmações. De 2 mil para 4 mil foram 9 dias. Confira o detalhamento:

  • 1º a 1.000 – 48 dias (1.086 casos em 29/04);
  • 1.000 a 2.000 – 13 dias (2.033 casos em 12/05);
  • 2.000 a 4.000 – 9 dias (4.060 casos em 21/05);
  • 4.000 a 8.000 – 11 dias (8.008 casos em 01/06);
  • 8.000 a 16.000 – 18 dias (16.039 casos em 19/06).

Em relação ao número de mortes, o cenário é semelhante: do total contabilizado desde o início da pandemia, mais da metade (55%) aconteceu nas três primeiras semanas de junho. De março a maio foram 305 mortes, enquanto que em junho ocorreram 388 óbitos.

No mês de maio, o Rio Grande do Norte teve mais mortes por Covid-19 do que por condutas violentas. Segundo a Secretaria da Segurança Pública e da Defesa Social (Sesed), o estado teve 134 assassinatos. Em contrapartida, quase o dobro de pessoas faleceram (249) por causa da nova doença.

Segundo o portal Coronavírus RN, plataforma oficial da Sesap, 1.993 pessoas se recuperaram da Covid-19. O número representa 12,4% do total de infectados.

Linha do tempo

Confira a evolução da doença no Rio Grande do Norte:

Entrevista coletiva com representantes do Governo do RN e da Prefeitura do Natal — Foto: Bruno Vital/G1

Entrevista coletiva com representantes do Governo do RN e da Prefeitura do Natal — Foto: Bruno Vital/G1

  • 12 de março: Sesap confirma primeiro caso do coronavírus no estado. A paciente de 24 anos se contaminou na Europa depois de ter visitado França, Itália e Áustria.
  • 13 de março: cerca de 17 pessoas que tiveram contato com o primeiro caso de Covid-19 entram no radar da Sesap. Um dia depois da confirmação, Assembleia Legislativa, Ministério Público, Câmara Municipal de Natal e Ministério Público Federal restringem funcionamento. Governo suspende visitas nos presídios e recomenda cancelamento de eventos.
  • 17 de março: UFRN, IFRN e Ufersa suspendem aulas presenciais por tempo indeterminado. A UERN suspendeu um dia antes.
  • 19 de março: com a ausência de pessoas nas ruas e as medidas de prevenção dentro das lojas, pequenos comerciantes começam a sentir os efeitos do novo coronavírus.
  • 20 de março: a governadora Fátima Bezerra determina o fechamento de bares e restaurantes por cinco dias, além de templos religiosos, teatros, cinemas, academias, casas de recepções e loja maçônicas. É o primeiro decreto com medidas restritivas para o funcionamento do comércio.
  • 21 de março: Mossoró, segunda maior cidade do RN, registra primeiro caso. Dois dias depois, o evento Mossoró Cidade Junina é cancelado a exemplo do São João de Natal.
  • 25 de março: o bairro Alecrim, maior centro de comércio popular de Natal, amanhece com as lojas fechadas.
Maior centro comercial de Natal — Foto: Anna Alyne Cunha/Inter TV Cabugi

Maior centro comercial de Natal — Foto: Anna Alyne Cunha/Inter TV Cabugi

  • 28 de março: feiras livres voltam a acontecer em Natal após uma semana de suspensão e registram aglomerações de idosos. Na Zona Sul da capital, motoristas em carreata pedem a reabertura do comércio e o fim do isolamento social no RN, contrariando recomendações sanitárias do mundo inteiro. No mesmo dia, em Mossoró, a Covid-19 provoca a primeira morte no estado.
  • 29 de março: polícia prende 23 pessoas durante festa em cumprimento a decreto que restringe atividades coletivas.
  • 30 de março: Prefeitura do Natal anuncia montagem de um hospital de campanha com 100 leitos no prédio do antigo Hotel Parque da Costeira e estima que unidade comece a funcionar na primeira quinzena de abril. No entanto, o hospital só começaria a receber pacientes no dia 4 de maio. Unidade foi inaugurada sem leitos de UTI. No mesmo dia, cerca de 58 lojas do Alecrim voltaram a funcionar.
  • 31 de março: morre Matheus Aciole, de 23 anos, até então a vítima mais jovem do coronavírus no Brasil. Estado chega a 92 casos e 2 mortes.
Matheus Aciole é a segunda morte por coronavírus no RN — Foto: Arquivo da família

Matheus Aciole é a segunda morte por coronavírus no RN — Foto: Arquivo da família

  • 1º de abril: 119 profissionais da saúde são nomeados para trabalhar no combate ao coronavírus em Mossoró e Currais Novos. Governo anuncia que vai renovar o decreto que suspende as atividades de bares e restaurantes até o dia 23 de abril.
  • 6 de abril: Rio Grande do Norte é considerado o sexto estado do país com maior incidência do novo coronavírus.
  • 7 de abril: Sesap estima colapso por falta de leitos no início de maio. Cenário aponta para a necessidade de intensificação das medidas de isolamento social no estado.
  • 8 de abril: Bebê recém-nascido, com quatro dias de vida, morre com coronavírus em Natal e é o mais jovem a morrer pela doença no Brasil. Em Parnamirim, busca por informações sobre o auxílio emergencial começa a gerar filas e aglomerações em bancos.
Algumas pessoas queriam tirar dúvidas sobre auxílio emergencial — Foto: Quezia Oliveira/Inter TV Cabugi

Algumas pessoas queriam tirar dúvidas sobre auxílio emergencial — Foto: Quezia Oliveira/Inter TV Cabugi

  • 9 de abril: Em novo decreto, Governo do RN fecha comércio não essencial e restringe transporte público. Texto do Executivo proíbe funcionamento de supermercados e padarias, mas prefeituras de Natal, Mossoró e Parnamirim editam decretos locais que determinam o contrário. No bairro de Mãe Luiza em Natal, ação beneficente de entrega de peixes durante a Semana Santa registra grandes aglomerações.
Filas registradas na distribuição de peixe na semana santa em Mãe Luiza — Foto: Kleber Teixeira/Inter TV Cabugi

Filas registradas na distribuição de peixe na semana santa em Mãe Luiza — Foto: Kleber Teixeira/Inter TV Cabugi

  • 15 de abril: profissionais de saúde representam 33% dos casos confirmados de coronavírus no RN.
  • 16 de abril: Governo desiste de hospital de campanha na Arena das Dunas duas semanas após anunciar chamada pública e contrata 60 leitos de hospital filantrópico. Sesap anuncia contratação temporária de 888 profissionais da saúde, dentro do plano de contingência de enfrentamento ao novo coronavírus.
  • 19 de abril: PM interrompe festa com 70 pessoas em um clube de Tibau do Sul e prende organizador por descumprir decreto de combate ao coronavírus. Estado registra 561 casos e 26 mortes. Apoiadores do presidente Jair Bolsonaro fazem manifestação pelo fim do isolamento social.
  • 21 de abril: pessoa em situação de rua morre com Covid-19 em Natal.
  • 23 de abril: Governo prorroga restrições ao funcionamento do comércio, mas permite abertura de indústrias, hotéis, lavanderias, salões de cabeleireiros e oficinas mecânicas.
  • 25 de abril: “Não existe um município do RN que o vírus não esteja circulando”, diz secretário adjunto de Saúde Petrônio Spinelli.
  • 28 de abril: em um mês, coronavírus faz mais vítimas do que dengue e chikungunya juntas em dois anos no RN.
  • 30 de abril: dormindo em papelões, potiguares passam madrugada em filas para tentar sacar auxílio emergencial.
População tentou dormir enquanto esperava atendimento na Caixa de Parnamirim — Foto: Inter TV Cabugi/Reprodução

População tentou dormir enquanto esperava atendimento na Caixa de Parnamirim — Foto: Inter TV Cabugi/Reprodução

  • 1º de maio: após 40 anos, Hotel Thermas anuncia fechamento em Mossoró por causa da crise provocada pelo coronavírus.
  • 2 de maio: PM suspende show organizado pelo Sindicato dos Médicos (Sinmed-RN) que aconteceria em frente ao Hospital Walfredo Gurgel em Natal.
  • 4 de maio: depois de cancelar contrato e fazer nova chamada pública, Prefeitura de Natal contrata mesma empresa para Hospital de Campanha.
  • 5 de maio: com 1.536 casos e 68 mortes, novo decreto do estado determina uso obrigatório de máscaras em locais públicos.
  • 8 de maio: Prefeitura suspende pela segunda vez contrato com empresa que forneceria mão de obra para hospital de campanha de Natal.
  • 9 de maio: Alecrim, em Natal, tem lojas abertas, aglomerações e até congestionamento mesmo com decreto de isolamento social. Na região metropolitana, dez pacientes de Covid-19 aguardam leitos de UTI.
Bairro Alecrim teve movimento mesmo co isolamento social — Foto: Reprodução/Inter TV Cabugi

Bairro Alecrim teve movimento mesmo co isolamento social — Foto: Reprodução/Inter TV Cabugi

  • 13 de maio: Sindicato dos Servidores em Saúde pede ‘lockdown’ no Rio Grande do Norte. Associações, federações, outros sindicatos e Prefeitura de Natal se posicionam contrários ao isolamento mais rígido. A Justiça extingue a ação em 18 de maio e o mérito do pedido não foi julgado.
  • 14 de maio: Covid-19 chega à população indígena potiguar. Doença tem casos confirmados em duas aldeias do estado.
  • 26 de maio: RN tem nove dos dez hospitais públicos com 100% dos leitos para Covid-19 lotados. Número de infectados por coronavírus aumenta 563% em um mês. Penitenciária Estadual de Alcaçuz registra 25 policiais penais com Covid-19.
  • 1º junho: Secretaria de Serviços Urbanos de Natal informa que cemitérios públicos não têm mais espaços para novos túmulos. Com UPA superlotada, paciente aguarda atendimento em calçada em Parnamirim.
Mulher é deixada em calçada na frente de UPA de Parnamirim — Foto: Reprodução

Mulher é deixada em calçada na frente de UPA de Parnamirim — Foto: Reprodução

  • 3 de junho: “Ela vai entrar aqui para morrer, não tenho o que fazer”, diz médica ao receber paciente em unidade superlotada na Grande Natal. A idosa de 84 anos com suspeita de Covid-19 morreu seis dias depois. Estado e municípios reconhecem que decretos não estavam sendo cumpridos e aumentam fiscalização com a operação “Pacto pela Vida”.
Dona Iraci Fonseca — Foto: Reprodução

Dona Iraci Fonseca — Foto: Reprodução

  • 4 de junho: Governo do RN recua e volta a proibir funcionamento de barbearias, salões de cabeleireiros e armarinhos.
  • 8 de junho: Ocupação de leitos críticos para tratamento da Covid-19 chega a 100% no Oeste do RN. Grande Natal tem lotação de 98%.
  • 9 de junho: após esperar sete dias por UTI em sala improvisada, idosa de 67 anos morre com Covid-19 em Natal. Taxa de mortalidade do coronavírus na Zona Norte é três vezes maior que na Zona Sul da capital e a ocupação de leitos para Covid-19 nas UPAs de Natal chega a 220%.
  • 11 de junho: RN tem pico de 1.666 novos casos em um único dia.
  • 12 de junho: Hospital João Machado ganha 10 leitos para tratamento de Covid-19 em Natal.
  • 13 de junho: PM interrompe festa em Extremoz com cerca de 100 pessoas e prende pelo menos 50, entre homens e mulheres.
  • 15 de junho: Governo do RN convoca 813 profissionais da saúde para atuar no combate à pandemia de Covid-19 e adia retomada gradual das atividades econômicas por causa da lotação de 99% nos leitos de UTI.
  • 16 de junho: bairros da Zona Norte concentram quase 40% das mortes por Covid-19 de Natal. No fim de março, Tirol, Petrópolis e Ponta Negra (bairros da Zona Leste e Sul) concentravam dois terços (66%) dos casos confirmados da doença. Também no dia 16, um idoso de 81 anos morreu de Covid-19 após esperar 11 dias por leito.
  • 17 de junho: Natal tem 100% dos leitos de hospitais públicos para casos de Covid-19 ocupados. Prefeitura da capital começa a testar população em “drive-thru” na Arena das Dunas. Estado tem pico de 41 mortes registradas em um único dia.
  • 18 de junho: em um mês, dobra o número de pacientes internados em estado grave.
  • 19 de junho: Governo define atividades que podem voltar a funcionar na 1ª fase da retomada da economia.
  • 20 de junho: RN chega ao 100º dia de pandemia com 16.039 casos e 693 mortes.
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